.sem.lei.Drogas.

sábado, 29 de setembro de 2007

Entrevista

Há algum tempo entrevistei um amigo meu.
Quando o conheci ele já tinha seus 34 anos e sua má fase já tinha passado.
É um cara que mergulhou fundo demais e se perdeu por lá.
Conversei um pouco com ele sobre o seu vício e sua recuperação.
Vamos chamá-lo de... JV.

JV, como foi que começoou essa história toda?

Em um grupo de teatro. Eu lembro que eu tinha 17 anos quando experimentei lança-perfume. Primeiro eu estava encanadão, mas eu vi todo mundo curtindo e decidi ver do que se tratava. Não me deu nada no começo, e depois eu comecei a gostar, mas não me importava de ficar sem.
Depois de um tempo rolou uma viagem e foi um amigo de um amigo de um amigo nosso que levou maconha. Um dia eu saí com ele e mais um cara e a gente varou a noite depois de muita farra. Era carnaval. Ele começou a fumar e ofereceu e, como eu já tinha experimentado lança, decidi ver qual era o barato da maconha. De novo, na primeira vez não me fez nada, mas muito tempo depois fui fumar de novo e curti. A partir daí comecei a fumar cada vez mais, principalmente enquanto passava de uma escola de teatro pra outra. Em uma delas tinha uma galera que fumava todo dia, e pelo menos duas vezes por semana eu me juntava com eles. Mas o que ferrou mesmo foi a facul, onde eu fumava todo dia.
Um dia eu fui fumar com um cara que eu não conhecia muito bem, e ele bolou o beque. Eu vi ele colocando alguma coisa que não era maconha no beque, mas nem me importei. Depois de um tempo eu fumei com ele de novo, e comecei a perceber que o beque dele era bem mais louco. Aí ele disse que ele colocava um pouco de crack junto. Um dia eu fui na casa dele e a gente fumou crack puro, e foi a melhor sensação da minha vida. A partir daí eu só fui me afundando cada vez mais.

Quais foram as consequências disso?

Meus pais me expulsaram de casa quando eu cheguei drogado e quebrei tudo pela frente, e o pior é que eu nem lembro disso. Quando eu acordei já estava tudo quebrado e eu não sabia de nada. Meu pai me empurrou pela porta e começou a jogar minhas coisas em cima de mim. Era de madrugada ainda, eu nem estava sóbrio.
Eu ia me casar. Não estava noivo ainda, mas já procurava uma aliança. Eu comecei a fumar um antes de ver ela, pra ver se ela percebia. Eu pensei que eu era o espertão por um tempo, até que ela não aguentou mais. Eu machuquei ela algumas vezes, porque já não tinha muito noção se estava apertando ela muito forte ou se ela nem estava sentindo. Era muito louco nao saber de nada ao meu redor, ficar completamente sem chão e tentar me virar. Eu sempre gostei disso, mas foi justamente o que acabou comigo.

Quantos anos você tinha nessa época?

24 anos.

Isso foi quanto tempo depois do seu primeiro crack?

Eu tinha 20 quando fumei crack pela primeira vez, então foi 4 anos depois. Isso foi tudo um processo demorado até, eu baforei lança quando tinha 15, meu primeiro beque foi aos 17 e eu só comecei a fumar de verdado aos meus 19 anos. Dos 15 aos 19, mesmo sendo usuário, eu era uma pessoa normal, namorava, trabalhava, ia pro colégio, sem ninguém saber de nada. Na verdade, até meus 24 anos deu pra levar tudo mais ou menos na boa. Eu sabi que as pessoas sabiam, mas ninguém falava nada, só quem também curtia ficar louco e pedia pra se juntar. Mas foi aí que meus pais me expulsaram e perdi a namorada, sem contar o meu emprego. Foi tudo em um mês só, foi horrível. Terrível.

E o que você teve que fazer depois disso? Sem casa, nem emprego? Pra onde você foi?

Então. Eu na realidade cheguei a morar na rodoviária por uns 3 dias, até os guardas perceberem que eu nunca ia pra lugar nenhum (risos). Mais de uma vez eu pegava minhas coisas e tentava entrar clandestino num ônibus, mas eu não conseguia finjir. O pior é que toda a minha pedra estava em casa, escondida. Aí eu passei na casa de um amigo meu que sempre tinha um pouco. Ele estava morando sozinho, e eu acabei ficando por lá. Mas nem ele, que também era viciado, conseguiu me aguentar. Eu não tinha como pagar pela comida, muito menos pelo crack, e não ajudava em nada, só sujava tudo. Aí ele convidou que eu me retirasse (risos). Ele encontrou um centro de reabilitação do governo, que era tudo de graça e me falou pra ir lá. Ele falou pros meus pais aonde eu estava e eles foram me visitar depois de um tempo. Quase um ano, na verdade. Eu jáestava bem melhor, mas ainda fumava escondido quando podia. Alguns dos internos conseguiam drogas dos próprios guardas de lá, e muita gente não se curava nunca. Mas aí eu percebi que era hora de eu parar, já estava ficando chato esse negócio de baixa auto-estima e auto degradação. Eu pedi desculpas pros meus pais e disse que quando estivesse realmente curado eu ia falar com eles de novo. Mas que não queria que eles me vissem antes disso. Minha mãe foi me visitar algumas vezes contra a minha vontade e escondida do meu pai. Não que eu não quisesse ver ela, mas eu não queria que ela me visse. Pelo menos não antes de me curar totalmente. Um dia eu comentei com ela que eu ainda estava fumando lá dentro. Eu fumava bem menos, mas ainda não conseguia me livrar totalmente. Aí ela encontrou um centro de reabilitação pago e me mandou pra lá na mesma semana. Eu fiquei completamente desesperado no começo, quando eu percebi que lá eu realmente não ia conseguir fumar absolutamente nada. Foram os meses mais difíceis da minha vida.

Em quanto tempo você estava recuperado.

(Risos) Essa é a parte engraçada. Em 5 ou 6 meses eu já podia voltar pra minha vida normalmente, mas eu tinha feito grandes amigos lá na casa, e a comida era muito boa. Então eu fiquei lá uns 4 meses mais do que eu precisava. Quando minha mãe perdeu o emprego eu decidi que era hora de parar de viver às custas dela e volta à ativa. Voltar pro batente.

Foi fácil voltar à vida normal, conseguir um emprego, etc?

Mais ou menos. Eu tinha perdido muito tempo da minha vida ficando louco. Entre meus 24 e 27 anos eu não tinha feito nada de bom. Eu já tinha me formado em publicide, esqueci de contar essa parte. Aos 23 anos eu me formei e estava trampando em uma agência fazendo uns freelas. Além disso tinha um trampo meio que fixo em uma produtora, que eu perdi quando ferrei uma campanha deles só pra ver o que acontecia (risos). Eu acho que descobri (risos).

Há quanto tempo você está sóbrio?

Já faz... deixa eu ver, espera. Desde os 29, na verdade, porque eu escorreguei duas vezes depois de recuperado. Então faz 8 anos já.

E quanto às drogas lícitas, tipo cigarro e álcool?

Eu sempre bebi socialmente, e nunca gostei de cigarro, por mais irônico que seja. Mas também nunca fui fã de álcool. Eu me estraguei muito na vida, mas nunca fiquei bêbado nem tive vontade.

Pra finalizar, como vai a vida?

(Risos). Vai bem. Muito bem. Eu estou trabalhando como designer pra uma produtora com carteira assinada e ganhando uma grana legal. Estou namorando e muito feliz. Além disso eu acabei de tirar o meu DRT de ator, que foi muito foda de conseguir.

Você pode só falar produtora de quê?

(Risos). Eu sabia que você ia perguntar isso! Eu sabia!

Responde aí!

É uma produtora de filmes pornôs pra toda a América Latina. Eu brinco mas não tenho vergonha nenhuma de trampar lá. Eu faço várias capas de filme pornô toda semana, já virou rotina, e o pessoal de lá é um barato, adoro o meu emprego. Sem contar que a grana que eu ganho me rendeu o meu apartamento na Vila Mariana, meu carro, eu saio quase todo final de semana e ainda sobra uma grana legal pra dar garantia que amanhã eu não estarei passando fome.
A indústria pornô é muito ativa. (Risos). O trocadilho não foi intencional.

Valeu, JV!

Eu que agradeço, irmão. Você tem um tempo livre aí? Eu aluguei Cheech and Chong, quer assistir?

Postagem inicial

Começando o blog do trabalho Sem Lei, da matéria de Narratividade e Roteirização do 6º semestre de Multimeios na PUC-SP. O tema abordado aqui será drogas.
Aguardem próximos posts.